– Então vamos?
– Vamos.
E eles não se movem.
Este é o diálogo final de Esperando Godot, mas também poderia ser uma síntese do espetáculo de Samuel Beckett. Na peça, Estragon e Vladimir, dois vagabundos, esperam por Godot, de quem pouco sabem, mas atribuem a ele sua possível salvação. Entra noite, sai noite, Godot não vem. A evolução psicológica das personagens também não. Eles conversam para passar o tempo, mesmo sem ter muito a dizer. É assim que eles se percebem no espaço.
O cenário é uma árvore à beira de uma estrada durante um entardecer. E isso é tudo o que sabemos. A árvore poderia estar na Irlanda, na Índia ou no Canadá: as rubricas de Beckett parecem dar ao espetáculo uma liberdade que ele próprio se recusa a utilizar. De Vladimir e Estragon também não sabemos muito. São tipos banais, que poderiam facilmente se aproximar de qualquer espectador. Além deste parecer, só sabemos que esperam. E na sua espera, parecem representar todo o vazio da condição humana e uma vaga esperança de salvação. Como se Godot, na livre percepção de seu nome (God - Deus em inglês) representasse a personificação de tudo que o homem busca e espera.
A peça é composta por dois atos e apesar da similaridade entre eles, o próprio Beckett afirmava a importância dessa composição: “Um ato teria sido insuficiente, e três, teria sido muito.” O autor tinha plena consciência de que apenas um ato, deixaria a ampla expectativa de que Godot poderia finalmente aparecer no dia seguinte. Mas a presença do segundo ato destrói toda e qualquer esperança, tornando desnecessária uma terceira parte.
Esperando Godot é um triste espetáculo do autor inglês que viveu de perto os horrores da Segunda Guerra Mundial, chegando a ser perseguido pela Gestapo. O sentimento de angústia e desengano marcaria toda a obra de Beckett.



